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Discurso de Bolsonaro repercute mal

Abertura de Assembleia da ONU vira palanque eleitoral e ‘apequena’ o Brasil diante do mundo

Discurso do atual presidente brasileiro na abertura da 77ª Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, foi classificado de “conto de fadas”, “mentiroso” e “eleitoreiro” por cientistas e representantes da sociedade civil brasileira.

Por Daniela Vianna, ClimaInfo

Líderes mundiais e o Brasil, país que tradicionalmente, desde 1947, tem por missão realizar a fala de abertura das assembleias gerais da Organização das Nações Unidas (ONU), testemunharam, na terça-feira (20/9), o discurso de um candidato à reeleição fazendo de palanque o púlpito do organismo multilateral, em Nova Iorque. Representando o país como Chefe de Estado, Jair Bolsonaro usou os 20 minutos de fala para criticar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – atual líder das pesquisas e seu concorrente na disputa eleitoral –, apresentar inverdades ou distorcer dados sobre corrupção, meio ambiente, gestão da pandemia e questões ligadas aos direitos humanos, além de exaltar o agronegócio e discursar para seus seguidores. O Aos Fatos checou ponto a ponto as falas do presidente e identificou 10 dados classificados como “falsos”, e outros quatro como “não é bem assim”.  

O discurso pegou mal dentro e fora do país. “A única boa notícia dessa passagem do Bolsonaro pela ONU é que deve ser a última vez que esse sujeito subiu naquele palco e mentiu para o mundo”, disparou Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima (OC). Segundo ele, Bolsonaro falha diante das três agendas principais da abertura da 77ª Assembleia Geral da ONU: a pandemia, o apelo de paz devido à guerra da Ucrânia, e o meio ambiente. “Em todas, ele é um exemplo negativo. Na pandemia ele deixou milhares de brasileiros sem vacinas, debochou dos doentes e mostrou, eu acho, o seu lado mais demoníaco. Paz e direitos humanos são palavras absolutamente desconhecidas por Bolsonaro. E meio ambiente é um dos seus mais notórios desastres. Se todos os governantes do planeta tivessem a mesma atitude do Bolsonaro, as metas do Acordo de Paris já teriam sido perdidas”, afirmou Astrini.

O OC reuniu dados para corroborar a diferença entre o discurso e a prática.  Números apontam que o Brasil possui, atualmente, 33 milhões de pessoas que passam fome e foi o país que reuniu 11% do total de mortes por COVID-19, mesmo tendo 3% da população mundial. As invasões de terras indígenas triplicaram na gestão do atual presidente, o número de indígenas assassinados é o maior desde 2003, o desmatamento na Amazônia cresceu 75% em relação à última década, e o número de queimadas até meados de setembro de 2022 já é maior do que o de todo o ano de 2021. “O mundo está é contando os dias para se livrar dele, assim como grande parte dos brasileiros”, sentenciou Astrini.

Constrangimento internacional

A falta de legitimidade internacional do governo Bolsonaro foi um ponto destacado por Ana Toni, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), ao repercutir o discurso dele na ONU. “O desmonte dos órgãos ambientais como o IBAMA e ICMBio, os galopantes níveis de desmatamento ilegais do atual governo, e a incapacidade de proteger nossas populações tradicionais, os ativistas ambientais e os jornalistas são algumas das razões pelas quais estamos totalmente deslegitimados junto à comunidade internacional”, afirmou Ana.

Ao O Globo, o diretor de investimento da finlandesa Nordea Asset Management (um dos maiores fundos de investimento mundial, com carteira de R$ 1,3 trilhão), Eric Christian Pedersen, concorda com a percepção de Ana Toni. Na entrevista, afirmou que “infelizmente, os fatos in loco, com desmatamento recorde, violência impune contra comunidades indígenas e aqueles que as representam, bem como o esvaziamento dos órgãos de controle, falam por si. Tudo isso precisa ser corrigido para criar um ambiente de investimento estável”.

Em entrevista à jornalista Daniela Chiaretti, no Valor, a ex-ministra de Meio Ambiente dos governos Lula e Dilma Rousseff, Izabella Teixeira, disse que “o discurso só reafirma que o Brasil dele [Bolsonaro] é menor. É um discurso de quem apequena o país e não sabe o significado de ser Chefe de Estado do Brasil. E só adiciona constrangimentos ao Brasil e aos brasileiros”.

A cientista política Mônica Sodré, diretora-executiva da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), lembrou que o tema da Assembleia Geral da ONU, neste ano, é “soluções transformadoras para desafios interligados”. Para a questão climática, diz ela, este tema (da ONU) não poderia ser mais pertinente, “pois sabemos que soluções territoriais são insuficientes para dar conta de um problema transfronteiriço, o maior desafio que já enfrentamos como humanidade até agora”, afirmou. “Ao [Bolsonaro] transformar sua fala em palanque, com imprecisões e inverdades, e focar unicamente em seu mandato, sem sequer abordar os desafios nacionais, perdemos a chance de nos posicionar adequadamente diante do mundo. Saímos pequenos”, concluiu.

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